Eu sou Andressa
Esses dias, antes da pandemia, eu fui ao samba. Dancei livremente com quem me chamou para dançar e também com quem convidei a uma dança. Uma dessas pessoas, como é comum acontecer, entendeu que aquilo poderia ser o início de um flerte. Perguntou meu nome e o que eu fazia. Pelo volume do som e das conversas no ambiente, não pude brincar com a pergunta, respondendo coisas do tipo: me divirto, cozinho, trabalho, pedalo, viajo. “Ora, o que eu faço? Muitas coisas”, pensei. Respondi, pela primeira vez na vida diante destas circunstâncias: “Eu sou padeira”. “Padeira?”, ele me perguntou surpreso, “Sim”, respondi, “Não parece”, disse ele. Eu sorri, incomodada, e fiquei pensando em como se parece uma padeira. Qual será o estereótipo da padeira? Antes de ir embora, este homem me deu seu número (sem que eu pedisse) por meio de um cartão profissional que poderia ser impressionante. Nunca lhe escrevi ou liguei.
Por que somos o que fazemos e o que fazemos se resume ao nosso emprego? Por que o sentido de nossas vidas se tornou lutar por um lugar de destaque na cadeia produtiva? Vou contar quem sou eu e por que resolvi escrever esta e outras reflexões futuras. Mas, para isso, vou ter que, ironicamente, relatar minha trajetória profissional.
Minha busca profissional sempre foi guiada por um horizonte utópico de salvar o mundo. Com 18 anos recém completos, entrei no curso de Geografia, para abandoná-lo ao final do primeiro semestre. Fui cursar Relações Internacionais, porque lá estavam disciplinas que eu queria estudar. Com menos de 20 anos, eu tinha uma noção pouco prática da vida e pensava: “Primeiro eu estudo, depois eu resolvo o que fazer”. Nos cinco anos em que cursei esta graduação, conheci pessoas que transformaram substancialmente minha forma de ver o mundo e minha própria identidade. Amigas, amigos, uma professora e professores. Fiz um intercâmbio para a Argentina. Lá, me inscrevi em matérias como Políticas Comparadas Latino-americanas, História Argentina, Negociação Internacional, etc. Me sentia um peixe fora d’água. Me assustava ao pensar em como eu transformaria aquilo em trabalho. Porém, era aquela coisa: “Primeiro estudo, depois resolvo”. Por sorte, durante o intercâmbio também tive a oportunidade de seguir estudando espanhol por cursos que a universidade oferecia. Adorava! Amava!
Quando me formei em RI, era estagiária de uma empresa da indústria de telecomunicações. Me lembro claramente de passar pela linha de produção da fábrica, ver todos aqueles telefones na esteira e só conseguir pensar em… lixo! Na minha cabeça, a oferta sempre foi exageradamente maior que a demanda. Lá, entendi que eu não serviria para criar necessidades de consumo. Então, declinei à possibilidade de ser efetivada para participar do processo seletivo de ingresso a um mestrado. Meu plano era este: estudar integração cultural no Mercosul e, depois, buscar um emprego no próprio órgão. Como língua estrangeira, o espanhol sempre me interessou muito mais do que o inglês. Me incomodava a imposição do inglês como língua de trabalho, assim como a leitura do mundo por teorias construídas neste idioma e que nada tinham a ver com nossa realidade continental.
Fui aprovada neste programa de mestrado e me mudei para Porto Alegre. Nada saiu como eu planejava. Entrei com um projeto para estudar a diplomacia cultural no Mercosul e saí com uma dissertação sobre a internacionalização do cinema brasileiro durante a ditadura civil-militar. Não me imaginava dando aula de Teoria das Relações Internacionais. Me sentia uma falácia. O caminho foi tortuoso, o dinheiro era pouco, nenhuma perspectiva de trabalho, mas, como sempre, me ampararam pessoas incríveis. Uma em especial, meu segundo orientador de dissertação. Pois bem, Florianópolis de novo, um freela num festival de cinema, porta aberta para novos contatos e amigos; pontes construídas para um novo emprego: produção de conteúdo para a difusão do documentário latino-americano. “Poxa, eu gosto mesmo de espanhol. Será que não seria na prática profissional do espanhol, e não apenas tendo-o como habilidade, que eu poderia intervir nessa realidade cultural regional com a qual eu me identifico?”.
Depois do mestrado, voltei para a graduação, Letras Espanhol, com 28 anos, pouca grana, mas, como de costume, encontrando pessoas maravilhosas. Fiz a nova graduação como um lindo voo a jato. Estudei como nunca, com afinco, com alegria, com curiosidade e com pressa! Logo que me formei, consegui um emprego temporário na rede municipal de ensino de Florianópolis. Como professora substituta, fiquei apenas um ano letivo, o de 2019, atuando na EJA (Educação de Jovens Adultos). Neste ano eu vivi, pela primeira vez, a experiência de ter um emprego estável, que era também um trabalho desejado, com salário fixo. Neste ano eu vivenciei aquele presente que não existe exclusivamente como uma preparação para o futuro: o próximo edital, o próximo processo seletivo, o próximo curso. Em 2019, respirei aliviada os ares de responder ao sistema o que ele espera de nós: ter um emprego convencional. Isso foi bom, porque, neste caso, coincidiu com um ideal de atuação no mundo. Quando decidi fazer Letras, desejava trabalhar com tradução audiovisual e com ensino. A educação é um campo de disputa para o poder simbólico que representam as línguas estrangeiras em um país ou em um continente.
Acontece que a vida não é chegar, é caminhar.
Em 2017, enquanto era feliz cursando Letras, mas angustiada com as cobranças da vida adulta, um algoritmo do Instagram me atingiu em cheio. Comecei a acompanhar umas publicações sobre como fazer levain (como criar uma levedura selvagem, ou o famoso fermento natural para pães). Era março, eu morava com meu ex-companheiro e aquela atmosfera de férias, verão e companheirismo era propícia à experimentação. Entrei no espírito “cientista maluca” e passei a dedicar muita curiosidade e tempo àquele ser vivo, que logo passou a dar frutos. Eu não podia acreditar que era eu quem estava fazendo aqueles pães! Sempre gostei de cozinhar e de compartilhar o alimento; de pensar em como eu poderia fazer em casa algo bom que comia na rua; de descobrir ingredientes e preparações fora daquilo que eu estava acostumada; de me demorar à mesa, sozinha ou com gente querida. Mas nunca pensei em ter no alimento meu trabalho. Afinal, se não se tem uma tradição familiar ou uma influência muito próxima, quem sai da escola querendo ser padeira ou padeiro? Alguns até saem com o desejo de cursar Gastronomia ou algum curso técnico na área. Porém, na minha realidade, o leque de opções era restrito e convencional. Optar por Geografia no vestibular e depois abandonar para fazer Relações Internacionais já foram passos ousados para o começo dos anos 2000.
Passei a fazer e a doar muito pão, além de estudar sozinha sobre o assunto. Nas festas de aniversários familiares, adivinha? Tinha pão! Presentes? Pão! Crescia a alegria por ver as pessoas comendo aquele alimento que eu fazia. Naturalmente, começaram as encomendas. Em pouco tempo, a realidade da cozinha doméstica não deu mais conta da produção. Eu precisava de um forno maior, controle de temperatura, uma mesa que não disputasse espaço com a fruteira e os pratos (por alguns meses, a mesa da cozinha passou a ser só minha, transferindo as refeições para a sala de janta) e vários utensílios de panificação. Foi o momento de decidir: o que eu quero com meus pães?

O ano de 2019 foi muito intenso. Fiz muito pão. Entregava pão no caminho para o trabalho na escola. Fazia pão e levava para o lanche coletivo com as professoras e professores. Ampliei minha carga horária na EJA para acompanhar alguns de nossos alunos num curso de auxiliar de panificação (PROEJA/IFSC) — olha a coincidência. Senti que, finalmente, eu tinha uma vida. Mas, principalmente, senti que eu tinha uma vida além do trabalho; que eu tinha tempo e recursos para me construir fora dele. O que eu faria, então, com essa bifurcação que se mostrava, a licenciatura e a panificação? E por que eu teria que escolher entre uma e outra?
O investimento em equipamentos e a adaptação do espaço doméstico para acomodá-los envolveram recursos que eu não tinha, eram familiares. Foi uma decisão pessoal mas também conjunta, que implicou movimentar uma grana que poderia fazer falta. A partir daí, eu assumi que estávamos criando uma micro-padaria na qual, por enquanto, eu era a única padeira. E eu me sentia bem. Fazer pão transformou minha vida, porque mudou minha mente e meu corpo. Sinto nas mãos a energia de realizar algo que me leva sempre para frente. Algo com o qual eu toco minha vida. Mas desde que passei a assumir a panificação como trabalho, penso nas explicações que eventualmente darei a variações de uma mesma pergunta: “E tudo que você estudou?”. Transfiro a outras pessoas um questionamento que vem, na verdade, de mim.
Minha juventude e vida adulta foram uma busca incansável por sinais que meu coração deu. Sou de uma geração e de uma classe social que tiveram o privilégio de seguir a lógica de estudar para trabalhar; filha de mãe e pai que superaram limitações materiais e educacionais e construíram uma realidade familiar distinta, certos de que dariam aos filhos as condições que eles não tiveram. O trabalho sempre esteve nos meus horizontes como uma forma de ser e estar no mundo. Nosso posto no universo do trabalho consiste em uma peça de alguma engrenagem, a favor ou contra um sistema. Não estava nos meus planos trabalhar com o que não construísse o mundo em que eu acredito — ou com o que mantém funcionando o mundo em que não acredito. Mas, com o passar do tempo, também comecei a refletir: De que adianta sair da curva para criar outras projeções de si que resultam na mesma equação “trabalho logo existo”? O que passou a me incomodar nesta busca é a necessidade de ocupar um lugar de prestígio em outros círculos, ainda que alternativos. Passei a entender que meu desejo era que o trabalho, qualquer um, desse a toda e qualquer pessoa a dignidade para existir de maneira íntegra; que o trabalho fosse uma parte do nosso dia, coerente com todo o tempo que a gente precisa para realizar outras atividades: esporte, lazer, cuidado familiar, ócio criativo. Eu estava cansada dos “carteiraços”.
As narrativas de pessoas que “venceram na vida” sempre me comoveram com reservas. É fácil falar para quem é branca e sempre teve uma retaguarda material e afetiva como a minha. Entendo que enquanto nossa sociedade produz empregos e condições que as pessoas só aceitam porque precisam; enquanto há discriminação declarada ou velada que impede a representatividade étnico-racial, de gênero ou de sexualidade em instâncias de poder e o acesso a determinados empregos, será louvável que as pessoas “vençam na vida” e necessário que existam cotas raciais e sociais nas universidades. Por outro lado, o que fazemos com os espaços vazios que continuam a existir quando uma pessoa felizmente consegue deixá-lo? Não considero feminismo o discurso que cria novas formas de opressão a outras mulheres (as que não estudaram, as que não são intelectualmente admiradas, as que não ocupam postos de trabalho extremamente machistas, etc). Feminismo não é trocar peças de lugar sem questionar a existência deste lugar. Acredito, então, que um dos aspectos do problema nas narrativas de superação são estes lugares que criamos e hierarquizamos em nosso viver. Dá para seguir achando que essa hierarquização é natural? A corrida por um bom emprego ou a determinação a fazer o que se ama podem ser igualmente opressoras, se os lugares de existência continuam a demarcar segregações — educacionais, culturais, afetivas — e a equalizar os verbos trabalhar e ser.
Quando penso em quem sou eu, gosto de responder como me ensinou uma grande amiga: Eu sou Andressa. Se hoje eu faço seu pão, ontem eu fiz outra coisa e quem sabe do futuro? Nesse caminho, o que importa é o que eu sou em tantos outros aspectos que não o profissional. Não tenho nenhum problema em dizer que sou padeira. Pelo contrário, entro na minha cozinha com uma vontade vibrante no peito e a sentença “eu sou padeira”, para mim, é verso. Só estou cansada de nos definirmos, de nos buscarmos, de nos relacionarmos pelo que fazemos como trabalho, e não pelo que somos na intimidade, na rua, no bar, na fila do pão, no trânsito; pelo prazer que temos em acessar o conhecimento não instrumentalizado. Não é triste que o acesso ao conhecimento se insira na lógica do mercado, em vez de nos constituir como seres humanos de outras maneiras? É por isso que tantas crianças detestam a escola.
Quantas vezes escutamos alguém dizer “João fez isso e olha que é um advogado, hein?”, “Maria agiu assim, muito estranho para uma médica”? Quantas pessoas éticas, honestas, talentosas e criativas não estarão a frente de postos de trabalho invisíveis?
Eu sou Andressa, eu faço seu pão. Isso importa, mas não tem importância.
Oi Andressa!
ResponderExcluirQue lindo texto, que bela trajetória. E que vida bem vivida também, cheia de nuances.
Parabéns por todos os aprendizados.
O dia que estiver em Floripa posso provar um pão seu? Beijo do amigo da Geografia, Fábio
Já está mais do que convidado para provar o pão!
ExcluirQue delicia viver sua histórias nesse texto. Que venham muitos pães para materializar o sonho de transformar o mundo. Um beijo! Ana Cecilia
ResponderExcluirAna, obrigada por ler e captar! ;) Sempre bom lembrar que foi você que me apresentou a Argentina como possibilidade de intercâmbio, relatando sua experiência como intercambista neste país, nas nossas conversas no ônibus para a Univali. Beijo!
ExcluirQue texto incrível... sensível, honesto e inteligentimente provocador...sua identidade refletida. Parabéns
ResponderExcluirQue maravilha, muito sucesso! Mas faltou o principal: onde a gente encontra o pão? ;)
ResponderExcluirDê, me identifico muito com a sua reflexão! Acho que o mais importante é não nos definirmos pelos outros, mas pela consciência do que carregamos em nós e manifestamos no mundo ao longo desse caminhar. Que seus pães te façam crescer muito, com muita alegria!
ResponderExcluirO aroma de suas palavras... a arte de ousar nos ingredientes que você nos apresenta aqui no seu texto é uma experiência saborosa e inspiradora. Relacionei seu signo com o fenômeno da piracema, os peixes que nadam contra a correnteza. Achei linda essa imagem!
ResponderExcluirQue seus saltos sejam fortes, lindos e alegres... e que nunca nos falte o seu pão!
Depois de ler esta linda Historia quero mais ainda te conhecer, quando vier a Brasilia me procure. @brotkultura
ResponderExcluirBoas fornadas!