imensidões e pequenezas
Já contei esta história para algumas pessoas. Nos últimos meses, ela veio à tona com a força da incredulidade pelo tempo passado, este que coloca as lembranças como fatos tão distantes que parecem memórias inventadas.
Eu era uma criança de oito ou nove anos que acordava no meio
da noite por causa de algum mosquito zumbindo em meus ouvidos. Despertava e não
conseguia mais dormir. Não me lembro de quantas vezes isso aconteceu. Talvez tenha sido apenas uma, mas suficiente para me estranhar e me conhecer.
Quando o mosquito me fazia acordar sem chance de voltar a
dormir logo, eu entrava em uma espiral de pensamentos que me deixavam cada vez
mais desperta e em pânico. Eu partia do meu núcleo familiar e viajava até o
Universo, querendo encontrar suas “paredes”. Precisava entender onde a Terra se
localizava, para compreender a dimensão da minha existência familiar. Ao não
encontrar os limites do espaço, o planeta onde eu vivia com minha família se
mostrava como algo ínfimo numa realidade que me expulsava da sensação de proteção que eu experimentava em casa. Minha família era tudo no meu mundo e
nada na imensidão do Universo.
Eu era uma criança de oito ou nove anos, que dividia um
beliche com um irmão cinco anos mais velho que eu no terceiro andar de um
prédio num condomínio com cinco blocos num bairro da Ilha de Florianópolis, e
questionava: se o Universo não existisse, o Planeta Terra não existiria e,
assim, minha família também não. Era esta a equação que me desesperava.
Minha identidade, por muitos anos, se construiu em torno
dessa relação entre quatro pessoas que se amavam de diferentes formas. Um amor
permeado pelo medo da perda. No elo entre o Universo e essa família, estava meu
irmão. Ele era meu cúmplice na experiência das alegrias e dificuldades próprias de
ter nascido pela decisão daquelas duas pessoas, nossa mãe e nosso pai. Eu não
tinha consciência, mas gostava de saber que de onde eu vinha também vinha meu
irmão. Como muitas crianças, em diversos momentos da minha infância e adolescência
eu me achei um ser bem estranho, mas ser irmã do Gabriel era um lugar de
conciliação comigo.
Quando meu irmão morreu, eu perdi minha identidade. Não foi
no dia ou nas semanas seguintes que me dei conta disso; foi quando a poeira
baixou. Quando a vida se reestabelece num sentido prático após a morte de
alguém que amamos, é que o luto começa a mostrar suas feridas. Pelo menos foi e
ainda é assim para mim. Com 37 anos, sei do que me constitui para além do meu
núcleo familiar. Sei, inclusive, daquilo que em mim não encontra par nessas
três pessoas – agora, seis, com minha cunhada e as crianças. A descoberta dos
conflitos. A perda de identidade, no entanto, não é apenas – como se fosse
pouco – pela ausência física de alguém extremamente familiar para mim, mas pela
falta de sentido em fazer coisas de que gostava; pelas questões que se
deflagram, requisitando minha responsabilidade e com as quais não identifico o
futuro que havia sonhado para mim. Estas não são vertentes estancadas, não é
possível identificar começo e fim, cabeça e rabo de cada uma. É um corpo só: o
meu corpo.
O luto varre a nossa vida sem recolher o pó, que paira no
ar. Não há canto ou fresta da casa que passem ilesos a esse vendaval. O luto
nos expulsa de nós, nos faz querer morar longe de quem somos, para fugir da
realidade que agora nos cabe. O luto não é um velório, rápido, com início, meio
e fim. O luto é um profundo divisor de águas: do outro lado, uma outra vida.
Nela há, sim, alegrias, dias calmos, taças de vinho, viagens, cafézinhos, banho
de mar, contemplação. Há tudo isso no luto. Mas ele é também uma dor que não se
vai, uma saudade que só aumenta, um choro que vem em meio a uma conversa com
amigos ou rodeada por desconhecidos. O luto é uma tristeza sempre a postos para nos
invadir sem aviso. É um absurdo.
Eu vi meu irmão ser levado por uma doença feroz sem poder
fazer nada para reverter seu sofrimento, sua dor, seu pesar pela perspectiva de não ver seus
filhos crescerem. Não queria abraçá-lo para que ele não suspeitasse que eu
estava com medo de que ele morresse. Guardava o abraço para quando, por
milagre, aquele câncer terminal sumisse. Um dia, diante de alguma boa notícia
que nos deu alguma esperança momentânea, eu o abracei e lhe disse: “Eu te amo,
eu sempre te amei”. Eu sempre amei meu irmão.
Eu vi a profunda dor da minha mãe e do meu pai. Vi os
olhinhos assustados dos meus sobrinhos. Vi o chão da minha cunhada desabar e um grande amor se transformar.
A vida foi cortada por experiências de dor extrema, não há como
recuperar o que existia antes disso. Não se retoma vida nenhuma. Aprende-se a
viver dali em diante. O luto não é um hiato, ele é o daqui para frente. Eu
tenho um passado, mas parte essencial dele não está aqui para recordá-lo
comigo. É como se nos arrancassem de nossos álbuns de fotografias antigas. A
morte prematura de alguém que amamos nos desautoriza as alegrias passadas. Não
há racionalidade nisso, mas o luto é assim. E embora a gente ainda sorria e
desfrute e trabalhe e faça planos, às vezes, a ideia de nunca mais abraçar
aquela pessoa e vê-la sorrir em carne e osso em nossa frente é enormemente
insuportável. Faz a cabeça arder, o peito se contorcer, sem ter para onde
correr. Falta o ar.
Em outros dias, a saudade é uma cama em que você deita para
se aconchegar, ou uma manta que você estende na grama para tomar sol. Dói, mas
sentir aquela saudade é o mais próximo que você pode chegar daquela pessoa que
não está ali e em nenhum lugar palpável. Nesses dias, a saudade é uma estranha
sensação de familiaridade que repousa em uma linha tênue entre o desespero e
algum tipo de conforto. Quando ela vem, aceito não compreendê-la, apenas
aproveito sua presença para ficar com meu irmão.
Frequentemente, quando cozinho, quando faço um pão, olho minhas mãos e vejo o Gabriel. Na verdade, todo meu corpo, meus movimentos, expressões faciais e até a respiração são marcas indeléveis da nossa familiaridade, e assim eu me sinto um ser único. Somos, eu e ele, dois completos anônimos e únicos, porque nos amamos. Sigo pensando que lugar tem esse amor no Universo. “Uma vida, uma existência e já não vou mais ver meu irmão”. Minha identidade agora é esta, viver esse abismo, me deixando cair, procurando respostas na terra, já que as paredes do espaço eu não encontro.
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| polvo de estrellas |
É o amor que nos distingue. Esse amor que nos faz querer ser iguais a todos na multidão. Talvez só essa distinção realmente importe no mistério da existência.

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