peixe frito

Meu irmão partiu num dia 3, no dia 3 de maio de 2021. Ainda parece mentira. Quando escrevo esse fato, me parece que vou despertar de um sonho, que algo surpreendente vai acontecer e revelar que ele, na forma como eu conheço, ainda está aqui. "Para mim, esse guri está por aí", como diz minha mãe, explicando como suporta.

A morte é um destino certo, mas a percepção sobre a partida de alguém que amamos é absurda. É como se o corpo se colocasse em estado de coma cada vez que se cai no abismo da ausência, da dor, da saudade do que não foi. Passo grande parte do meu tempo buscando alternativas de distração e sou capaz de sorrir em muitos momentos dos meus dias. Em muitos outros, choro. Em muitos outros, tento encarar e repousar na realidade.

No último dia 3, quando se completaram seis meses da partida do meu irmão, acordei e decidi que não faria nada. Não pensaria na lista de tarefas adiadas; não pensaria nas preocupações, nem nas inseguranças. Fazia sol e quis aproveitar o dia na rua, sem pressa, sem amanhã. Era uma quarta-feira, eu iria sozinha, mas convenci meu pai a romper com os afazeres e rumar comigo ao sul da Ilha.

Fomos até a praia da Solidão, onde deixamos o carro e pegamos a trilha para o Saquinho. É um dos melhores lugares daqui, para mim. Caminhamos com calma, com intervalos de silêncio contemplativo, sorvendo a paisagem. Agora, percorro esses caminhos familiares como quem faz um reconhecimento do mundo, do mundo sem meu irmão, uma vastidão que eu não posso abraçar, porque me tornei tristeza. Como pertencer às coisas que me constituíam, se elas me lembram que tudo mudou? Como habitar a pele das alegrias da memória?

Chegamos a um pequeno vilarejo, logo depois da praia do Saquinho e antes que a trilha se feche em direção a Naufragados. 

Neste lugar, vive uma figura conhecida, seu Quirino, um senhor manezinho dono do único restaurante daquele canto. É um bar simples, que se integra à paisagem sem agressões no porte e nas cores da construção. Costeamos a casa, começando a retornar pela trilha. Vimos um lagarto, que andava pelo caminho sem nos notar facilmente. Passei a ter medo de lagartos porque meu sobrinho de 5 anos foi mordido por um no quintal da nossa casa, então, pera lá! Entre "vamos" e "não vamos", seu Quirino reparou em nosso conflito e perguntou da janela: "É o lagarto?". Aí, saiu ele de dentro da casa, conduzindo a gente com leveza e propriedade. Logo o lagarto se escondeu, como fazem todos quando não atacam. 

Ficamos proseando um pouquinho e seu Quirino contou sobre o funcionamento do bar: "Só nos finais de semana e feriados." Disse que antes a esposa dele cozinhava, mas ela faleceu. Um peixinho frito ele até faz, mas aquelas comidas que turista gosta é o sobrinho dele que prepara, porque é cozinheiro profissional. "Mas não tem nada como um peixe frito, né?", arrematei, tentando me mostrar daquela terra também. Meu pai sacou a máscara, abriu um sorriso que nem todos que o conhecem já presenciaram e completou: "Bom mesmo é a pescadinha amarela frita!". Contentes com o acordo identitário, seguimos, mas não sem vontade de... peixe frito! Meu pai foi o primeiro a manifestar: "Poxa, se tivesse um lugarzinho por aqui pra comer um peixinho frito...". É, se tivesse, porque, em geral, os restaurantes por aqui são voltados para turistas. 

Já no carro, voltando para casa, crescia a ideia de levar o peixe e fritar em casa, mas hesitávamos em parar nas peixarias que víamos. Acho que meu pai queria mesmo era ir até o mercado público e assim foi. Nesse ponto do relato, minha garganta dá um nó. Havia uma alegria pelo encontro com um costume. Havia um resgate, uma busca por uma felicidade de fino traço. Descobríamos esse fio que nos conduzia pela nossa identidade como família e como moradores de Florianópolis. Havia também e sobretudo a surpresa por ver meu pai, um homem da montanha que mora há mais de trinta anos em uma ilha, se deixar levar pelos movimentos daquele dia atípico.

No mercado público não tinha pescadinha amarela, só a branca. Os vendedores diziam que uma era tão boa quanto a outra. Um freguês fez que ia concordar: "A branca é muito boa. Só perde para a amarela". Meu pai riu de novo. A cidade seguia seu fluxo, mas estávamos lá, atrás de uns peixes num dia de sol. Levamos quantidade para que minha cunhada e as crianças também fossem jantar com a gente. Por volta das seis da tarde, lá em casa já se sentia cheiro de peixe frito. Meu pai que fritou. Tem que passar na farinha para não grudar!

Sentamos à mesa e finalmente comemos com as mãos nosso peixe frito com arroz, tão satisfeitos! Meu sobrinho mais velho não queria a carne branquinha do peixe, selecionada pela dinda, queria "com casquinha". Meu irmão adorava as casquinhas. Ele ficava horas comendo o peixe de forma cirúrgica, raspando até não sobrar nadinha. Fomos criados assim, prolongando as refeições, desfrutando de momentos como aquele, dividindo as casquinhas do peixe frito ou do frango assado. O Gabri teria adorado aquele dia. Provavelmente, não teria deixado sobrar o único pedaço que as nossas barrigas cheias não deram conta.

A satisfação por aquela refeição deflagrava a ausência do meu irmão. Eu sou, também, essa ausência, ela me contém. Somos essa incompletude sem tempo para acabar. Mas somos também a plenitude de saber que pertencemos a uma história, a um costume, a uma possibilidade de se emocionar, a uma terra, mesmo sem necessidade de morrer nela.

Me ponho a pensar nos pares da minha geração que transitam pelo mundo a registrar as raízes alheias, sem no entanto quererem ser personagens ativos dessas anedotas locais. É claro que o registro dessas histórias e modos de vida contribui para suas existências. E falo de um registro respeitoso, de alguém que limpa os pés para entrar na casa de outres. Porém, sinto que constrói-se uma hierarquia entre o ir e o ficar que me afeta particularmente. Talvez por isso me seja tão caro o sentimento de pertencimento a um lugar, ainda que eu queira deixá-lo. Talvez porque, a despeito de minha vontade constante de pertencer também à estrada, eu anseie por encontrar a paz em um quintal.

Eu pertenço à lembrança do meu irmão comendo peixe frito com as mãos. Foi aqui, nesta família, nesta cidade que construímos esse laço, esse costume, essa porção de identidade. É uma honra dividir uma história contigo, Gabriel, meu irmão.

Comentários

  1. Que texto bonito, Andressa! Temperado com sabor, sabedoria e serenidade. Meus olhos umedeceram, minha língua salivou e deu vontade de comer esse peixinho com vocês!

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    1. Passeei por algumas emoções ao longo do texto! A alegria pela beleza da escrita, a angustia em entender o desamparo da morte, a risada inevitável imaginando a licença concedida pelo lagarto, saudades das mesas fartas de domingo de outrora e por fim o contentamento e a felicidade que é poder degustar seu pão cotidianamente. Agradeço

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