Já contei esta história para algumas pessoas. Nos últimos meses, ela veio à tona com a força da incredulidade pelo tempo passado, este que coloca as lembranças como fatos tão distantes que parecem memórias inventadas. Eu era uma criança de oito ou nove anos que acordava no meio da noite por causa de algum mosquito zumbindo em meus ouvidos. Despertava e não conseguia mais dormir. Não me lembro de quantas vezes isso aconteceu. Talvez tenha sido apenas uma, mas suficiente para me estranhar e me conhecer. Quando o mosquito me fazia acordar sem chance de voltar a dormir logo, eu entrava em uma espiral de pensamentos que me deixavam cada vez mais desperta e em pânico. Eu partia do meu núcleo familiar e viajava até o Universo, querendo encontrar suas “paredes”. Precisava entender onde a Terra se localizava, para compreender a dimensão da minha existência familiar. Ao não encontrar os limites do espaço, o planeta onde eu vivia com minha família se mostrava como algo ínfimo numa reali...
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peixe frito
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Meu irmão partiu num dia 3, no dia 3 de maio de 2021. Ainda parece mentira. Quando escrevo esse fato, me parece que vou despertar de um sonho, que algo surpreendente vai acontecer e revelar que ele, na forma como eu conheço, ainda está aqui. "Para mim, esse guri está por aí", como diz minha mãe, explicando como suporta. A morte é um destino certo, mas a percepção sobre a partida de alguém que amamos é absurda. É como se o corpo se colocasse em estado de coma cada vez que se cai no abismo da ausência, da dor, da saudade do que não foi. Passo grande parte do meu tempo buscando alternativas de distração e sou capaz de sorrir em muitos momentos dos meus dias. Em muitos outros, choro. Em muitos outros, tento encarar e repousar na realidade. No último dia 3, quando se completaram seis meses da partida do meu irmão, acordei e decidi que não faria nada. Não pensaria na lista de tarefas adiadas; não pensaria nas preocupações, nem nas inseguranças. Fazia sol e quis aproveitar o dia na ...
12 cucas
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No dia 25 de julho de 2020 assei a primeira fornada de cucas da Mañana, nossa micro-padaria virtual. Depois de semanas testando massas, conversando com pessoas e ativando memórias afetivas, finalmente tomei coragem para lançar nossas cucas no cardápio. Três sabores: simples, de coco e de maça com creme de cardamomo. Tivemos doze pedidos. Falo em coragem, porque vender pães ainda é algo novo para mim, já que não venho de uma família de padeiras ou padeiros profissionais. Aliado a isso, existe o fator da insegurança, que me leva a questionar muito se meu produto está à altura de ser comercializado. Tenho a tendência a olhar para o trabalho alheio como algo perfeito e para o meu como um produto eternamente amador, o que é evidentemente ruim, porque rouba todo o prazer do trabalho e o esvazia de razões, quando é uma escolha. Mas o fato é que lancei as cucas e lancei porque quis; porque a cuca é um pão doce presente na minha história e afetivamente importante, e amo seu sabor. Por isso,...
Eu sou Andressa
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Esses dias, antes da pandemia, eu fui ao samba. Dancei livremente com quem me chamou para dançar e também com quem convidei a uma dança. Uma dessas pessoas, como é comum acontecer, entendeu que aquilo poderia ser o início de um flerte. Perguntou meu nome e o que eu fazia. Pelo volume do som e das conversas no ambiente, não pude brincar com a pergunta, respondendo coisas do tipo: me divirto, cozinho, trabalho, pedalo, viajo. “Ora, o que eu faço? Muitas coisas”, pensei. Respondi, pela primeira vez na vida diante destas circunstâncias: “Eu sou padeira”. “Padeira?”, ele me perguntou surpreso, “Sim”, respondi, “Não parece”, disse ele. Eu sorri, incomodada, e fiquei pensando em como se parece uma padeira. Qual será o estereótipo da padeira? Antes de ir embora, este homem me deu seu número (sem que eu pedisse) por meio de um cartão profissional que poderia ser impressionante. Nunca lhe escrevi ou liguei. Por que somos o que fazemos e o que fazemos se resume ao nosso emprego? Por que o sen...